O conflito de atletas de alto desempenho durante o COVID-19

Como resultado da pandemia causada pelo COVID-19, houve uma paralisação quase que total na prática do esporte, inclusive levando ao adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Agora, pense um pouco: como você reagiria se, após uma dedicação incrível para se qualificar a essa competição tão importante, seus planos e expectativas precisassem também ser adiados? Como um atleta olímpico, pronto para o alto desempenho, reage emocionalmente a uma situação como essa?

Pois bem, em 22/4/2020, a publicação técnica International Journal of Sport and Exercise Psychology apresentou um trabalho assinado por seis cientistas especializados em fisiologia, neurociência, educação física, nutrição e psicologia do esporte para tentarem responder essas perguntas. E o time de MENTALFUT® procurou resumir as principais conclusões que os autores apontaram como impactos no desempenho mental de atletas com passaporte pronto, ou naqueles em processo de qualificação aos Jogos Olímpicos.


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O trabalho comenta que, nas últimas semanas, muitos estudiosos do desempenho mental e emocional de atletas apresentaram sugestões sobre como um atleta deveria agir em seu cotidiano e na sua preparação, tomando por base a realidade geográfica (a região onde o atleta está e o estágio da pandemia). É do conhecimento geral o esforço coletivo encampado por governos, organizações esportivas e o Comitê Olímpico para criarem estratégias que apoiem coaches e psicólogos esportivos e os atletas, em um mundo socialmente distanciado.


Segundo os autores do trabalho publicado, os debates e as sugestões variaram desde os desafios que os atletas estão enfrentando com questões associadas ao isolamento social, interrupção na carreira e a incerteza no processo de qualificação até ao acesso limitado a centros de preparação e a parceiros de treinamento. Alinhadas a esse cenário, foram feitas considerações importantes quanto à saúde e o bem-estar dos atletas nas atividades preparatórias em busca da excelência. Também ficou pontuado que os editoriais do International Journal of Sport and Exercise Psychology sempre foram voltados a tópicos especiais ligados a desempenho de atletas, mas o momento atual exigiu uma mudança.


Pandemia global COVID-19. Foto: Reprodução

No editorial de 22/4/2020, porém, houve um desvio na abordagem por conta dessa inesperada pandemia global, fazendo com que o esporte não esteja sendo promovido como de costume, bem como trazendo aos atletas desafios novos e desconhecidos. Os coautores do editorial são da Ásia, Europa e América do Norte, e sua proposta foi a de apresentar premissas estruturadas em três momentos diferentes: (a) antes do adiamento das Olimpíadas de 2020; (b) o momento do adiamento das Olimpíadas de 2020, e (c) o caminho que está sendo redefinido em direção a Tóquio, em 2021.



Antes do adiamento olímpico


Conforme os autores, o cotidiano tendia a ser normal antes da crise, dentro e fora do contexto de alto desempenho esportivo. No início, aconteceram comentários esparsos sobre a existência de um potencial vírus em vários países. Progressivamente, passou a existir um número crescente de pessoas (incluindo atletas) identificadas com COVID-19, nos cinco continentes. Chegou-se então ao ponto em que atletas experientes solicitaram o cancelamento de eventos de qualificação olímpica que, por sua vez, foram adiados.


Os atletas ficaram desnorteados e, em meio ao debate criado, seus coaches e psicólogos esportivos procuravam construir uma programação mental para esse momento. O calendário estava sendo avaliado e, em alguns países, exames locais começaram a identificar casos positivos de atletas com COVID-19. Em geral, os atletas passaram a viver um mundo muito restrito, centrado em seu dia-a-dia, diminuindo o contato direto com a realidade distante de seu ambiente esportivo local.


Curiosamente, muitos atletas foram obrigados a ter sua vida circunscrita a uma cidade, com acesso físico limitado a familiares e amigos. Enquanto isso, e pelas mídias sociais, eles tomavam conhecimento que atletas concorrentes ainda eram capazes de treinar em formato mais convencional. Realidade que construía a vantagem de alguns em detrimento de outros. Organizações esportivas nacionais e comitês olímpicos começaram a expressar preocupações sobre a programação das Olimpíadas.


Dentro de um ambiente global disperso e heterogêneo, os organizadores estavam em contato com os atletas, muitos dos quais fizeram planos, não apenas para as Olimpíadas, mas também para depois das Olimpíadas. Alguns já tinham planejado até mesmo a continuidade para o próximo ciclo olímpico, enquanto outros desejavam constituir famílias, retornar os estudos em universidades ou faculdades, ou mesmo lançar-se para outro desafio profissional. Os planos de vida dos atletas se estendiam além do esporte, alcançando uma existência holística mais ampla.


COI admite pela primeira vez adiar os Jogos Olímpicos de Tóquio, marcados inicialmente para julho e agosto (Foto: AFP)

E então, o estresse criado por esse momento novo e inesperado passou a gerar insônia, perda do apetite, aumento da ruminação mental (pensamentos repetitivos e intensos), solidão, e o medo de que algo pudesse levar à perda de seu esperado momento olímpico. Para o levantamento que fizeram, os autores adotaram como estratégia, fosse em contatos pessoais ou à distância, promover a abertura franca dos atletas quanto ao que estavam pensando e sentindo. Essa abertura buscou incentivar os atletas a expressarem desafios, medos, frustrações e incertezas, primeiro em processo de confidência livre para, depois, orientá-los à solução de problemas conforme mais informações emergiam.


Essa abertura também incentivava um fluxo de comunicação entre os atletas e aqueles que trabalham ou trabalharam com eles em suas respectivas organizações esportivas. A crença dos autores era de que momentos de desafio serviriam para fortalecer relacionamentos e ainda garantir alto nível de competição. Também procuraram fortalecer o elo com familiares e amigos, além do trabalho com os coaches e psicólogos esportivos. Resumidamente, o foco dos autores estava em trabalhar muito além da questão esportiva, chegando a tratar de condições humanas básicas, como vida saudável, alimentação, sono, e cotidiano em geral.



Adiamento olímpico formal


Em apenas algumas semanas, vários comitês olímpicos foram se retirando da competição. O efeito dominó dessas decisões chegou ao Comitê Olímpico Internacional e ao Japão, culminando com o adiamento dos Jogos Olímpicos de 2020. Os autores comentam, no trabalho, que as respostas emocionais dos atletas variaram desde alívio até o questionamento sobre a efetiva remarcação do evento. Atletas olímpicos são conhecidos por sua coragem e resistência, têm cenários mentais direcionados com bastante antecedência, enquanto as habilidades técnicas, táticas, fisiológicas e psicológicas são aprimoradas. Os atletas procuram estar no auge do desempenho para competirem com excelência no cenário mundial, principalmente em um evento olímpico.

Presidente Thomas Bach Denis Balibouse Foto: VEJA

Para os atletas, e de forma repentina, anos de trabalho duro e comprometimento ficaram colocados em risco, na medida em que a realização dos Jogos Olímpicos começou a ser questionada. Mas outras perguntas se seguiram: O processo de qualificação para a competição será mantido? Quem já está qualificado terá garantido o seu direito? Enquanto isso, o que os atletas devem fazer até que o evento seja remarcado? Como organizar os treinamentos e definir metas em um momento de incerteza de datas?


Vale comentar que alguns atletas viram essa mudança como positiva, pois reconheceram lacunas em seu desenvolvimento rumo ao potencial olímpico. Quando os atletas treinam em alta intensidade para um evento quadrienal, há um período específico entre a última realização do evento e o próximo ciclo de qualificação quatro anos à frente. Então, os atletas, seus técnicos, os coaches e/ou psicólogos esportivos se comprometem a capitalizar os pontos fortes e minimizar as limitações existentes. Sempre há lacunas na preparação de um atleta, e muitos deles começaram a refletir sobre o desempenho atual e em que área deveriam se concentrar para melhorar seus índices.

Ilustração: Vivek

Os autores afirmam que as lacunas identificadas eram técnicas, táticas, analíticas, psicológicas e até fisiológicas. Vários atletas enfrentavam lesões persistentes que comprometiam a capacidade de realizar o seu melhor desempenho, sendo isto decorrente de terem forçado os limites físicos. Quando os atletas começaram a compilar uma lista de lacunas em seu momento atual de desenvolvimento, foram criados novos planos para explorarem oportunidades não identificadas anteriormente. Para os atletas que permaneceram equilibrados diante do momento, mais tempo ficou disponível para reconhecerem as lacunas e começarem a explorá-las com a equipe técnica.

Esses atletas passaram pelo sentimento de terem sido interrompidos em seu progresso, devendo agora considerar um período de tempo ainda indefinido para a solução construtiva de lacunas existentes. Os atletas e suas equipes técnicas agora poderiam canalizar energia e trabalhar em fraquezas identificadas, além de reforçar os pontos fortes até retomarem as atividades normais. Portanto, se havia a necessidade de encontrar momentos para intervenções como atenção plena, estabelecimento de metas, ou reconceituação de premissas de treino, seja à distância ou não, este foi o momento ideal.

Segundo os autores, o trabalho focado nas “pesquisas de lacunas” levou a respostas efetivas que, em outra situação, nem todos os atletas teriam alcançado. Sem orientação construtiva e apoio, os atletas que se acham imprevisivelmente inativos ou sem orientação tendem a sofrer de estresse psicológico e até problemas de saúde mental. O que é conhecido sobre os atletas quanto a mudanças ou transições na carreira, bem como quando chegam na aposentadoria, sugere que a falta de adequado direcionamento, para o momento em que cai o desempenho, coloca os atletas em perigo e diante do desafio da síndrome de burnout.


Sentimentos pessoais de alienação e ausência de respostas de enfrentamento, neste caso, ampliadas pelo isolamento social, resultaram em diversos problemas de saúde mental. Na história das Olimpíadas, nunca houve momento mais importante para os profissionais que acompanham o estado emocional dos atletas estarem acessíveis, ajudando-os a validar a multiplicidade de pensamentos e as emoções contraditórias experimentadas com foco nos Jogos Olímpicos, agora diante da notícia do cancelamento.



Caminhos à frente para Tóquio 2021


Dado que as Olimpíadas foram reagendadas para 2021, ainda há muita incerteza em termos de como serão os caminhos olímpicos até lá. Ocorrerão eventos ​​nos últimos meses de 2020, retomando as competições de qualificação, ou isso só se dará no início de 2021? Sem uma bola de cristal, tornou-se quase impossível prever etapas intermediárias de preparação até o ponto culminante de um evento que quebrou a expectativa quadrienal, nunca antes tendo acontecido uma situação tão dramática em que os atletas, e aqueles que trabalham com eles, devam ser tão flexíveis e criativos.


Foto: Divulgação/COI

A pandemia atual ofereceu e oferece oportunidades para que os atletas tirem vantagens excepcionais. Lições obtidas através da autonomia, engenhosidade, resiliência, equilíbrio na vida, atenção plena e muitas outras habilidades possíveis, podem e irão forjar atletas modificados e fortalecidos, com suas competências aprimoradas. Momentos de quietude apresentam aberturas para refletir, reavaliar, revisar e reformar planos. A difusão dessas lições pode servir extremamente bem aos atletas de todos os esportes, uma vez que os acontecimentos em nossas vidas nunca são lineares, e são sim sinuosos e até tortuosos.


Retrospectivamente, os autores terminam por afirmar que, mesmo quando alguém acredita que está parado devido a incertezas, nunca estará realmente estagnado. A condição humana deve ser assumida de tal sorte que as pessoas aprendem com suas circunstâncias, e a elas se adaptam. Os próximos dias fornecerão aos atletas dados, diálogos e intervenções fascinantes, tudo construído como resultado do que poderia ter sido facilmente descartado, nascido de um momento isolado e infeliz da história humana e, também, da história olímpica. No entanto, e ao contrário, não se deve subestimar a força do espírito humano e, quanto aos atletas olímpicos, vale finalizar afirmando que eles foram, são e continuarão sendo sempre forjados através de adversidades.

(autores do trabalho em https://doi.org/10.1080/1612197X.2020.1754616: Robert Schinke, Athanasios Papaioannou, Kristoffer Henriksen, Gangyan Si, Liwei Zhang & Peter Haberl)

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